Carnaval SP

Mãe Cleusa a eterna Embaixatriz do Samba

Mãe Cleusa Embaixatriz do Samba

Mãe Cleusa Embaixatriz do Samba

No início da manhã do dia 2 de abril de 2010, numa sexta-feira, chegou aos sambistas a triste notícia da morte de Cleusa Aparecida Viana, ou simplesmente, Mãe Cleusa, vitimada pelo câncer não iria mais ser a luz no caminho de tantos sambistas. Embaixatriz do Samba Paulistano – Cidadã Samba, condecorada pela UESP em 2009. Também foi homenageada no ano seguinte pela Mancha Verde ao lado de outros grandes sambistas paulistanos no desfile da co-irmã. Já estava adoentada e recebeu em vida uma grande homenagem, em seu último desfileao sair com a Imperador do Ipiranga no mesmo ano.. Um dos grandes ícones do Carnaval de São Paulo. Mãe Cleuza foi formadora de diversos sambistas do Carnaval Paulistano e integrava a Embaixada do Samba. “É tanta maravilha que o samba me proporcionou que me sinto uma privilegiada.”, costumava dizer. Uma passista como poucas, sambava como ninguém.

Iniciou na dança ainda criança, aos 13 anos, com personagens e grupos importantes à época, viajou o Brasil e ganhou o mundo. Mas acabou chegando às escolas de samba, sua estreia foi no dia do batismo do cordão ‘Paulistano da Glória’, e de imediato foi convidada a assumir o posto Porta-Bandeira, ao lado de Ted, do Vai-Vai, foram batizados por Dona Sinhá e a Xina (Porta-Bandeira do Vai-Vai). Ajudou a escola organizando as festas e, depois, como rainha de bateria. Em 1973, Geraldo Filme da Gloria, diretor do Paulistano, a levou para a recém-fundada Pérola Negra para colaborar na montagem da escola. No ano seguinte, 1974, chegou ao ‘Camisa Verde Branco’ e, sob o comando do Mestre Lagrila, após o encerramento do ‘Paulistano da Glória’, ingressou na Corte da Barra Funda onde permaneceu até 1990. Também passou pela’ Peruche’ e no Anhembi ajudando na eleição e apresentações da Corte do Carnaval.

Não negava o seu amor pelo ‘Camisa’, que chegava a derrubar lágrimas ao cantar o hino da agremiação batendo a mão no peito:

Sou verde e branco até a morte 
Do
verde e branco não me separarei 
Deu-me tantas alegrias
Belos carnavais que eu passei, eu passei
Na sua bandeira, enxuguei o pranto de uma dor não esquecida
Deslumbrante na avenida
A minha escola é realmente a mais querida
De janeiro a janeiro, o ensaio é geral
O samba é o nosso ideal

Foi a primeira passista paulista a dançar com Osvaldo Sargentelli, mas curiosamente achava pejorativo o termo ‘mulata’.  A conheci na cerimônia de premiação do Troféu Nota 10, do Diário de S.Paulo, ela estava sentada numa das mesas mais ao fundo, onde todos sambistas que ali passavam pediam sua benção, muitas rainhas e madrinhas recebiam ali humildemente seus conselhos sábios. Não ficou sozinha por um só minuto, a todo momento tinha companhia para um bom bate-papo. Percebi o quanto ela era reverenciada e querida por todos os pavilhões.

Vi ali que Mãe Cleusa escreveu a sua própria história no Carnaval de São Paulo, isso ao longo de décadas de dedicação e humildade, que tinha livre trânsito em todas as agremiações. Espiritualista, Mãe Cleusa sempre tinha uma palavra amiga, ou um conselho a ser dado especialmente às sambistas, as passistas e rainhas. “A passista é dançarina, bailarina e pode ser um cartão-postal da entidade se tiver postura e discernimento, porque ela faz parte da cultura do samba, samba-de-roda… Não podemos banalizar a função dessas beldades, cabendo a elas apoiar-se no fundamento e importância dentro da estrutura organizacional do espetáculo, afinal todo pavilhão almeja o respeito.”

Mãe Cleusa dedicou toda a sua vida ao Carnaval de São Paulo, dividindo-se com os trabalhos espirituais no Candomblé e na criação dos seus quatro filhos . “O meu desfile inesquecível, o que choro ao recordar, é Negros Maravilhosos, síntese do samba, da raiz, do enredo, da cultura e da cidadania e Boa Noite São Paulo, nesse os compositores conseguiram dizer tudo o que é a noite a nossa pauliceia desvairada. Um samba cantado em todas as escolas de samba, um convite da Barra Funda para amar, curtir a nossa cidade e o nosso carnaval.”, afirmou.

Salve Mãe Cleusa, que sua luz continue a inspirar os sambistas de todos os pavilhões!